O que fazer com o corpo de um astronauta que morre no espaço

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Mês passado tivemos o primeiro crime acontecido no espaço – e não, não foi um assassinato. Mas e se fosse? O que fazer com um cadáver espacial? Quem responde é Caitlin Doughty, autora de sucesso, agente mortuária e dona de uma funerária em Los Angeles, Califórnia. Segundo ela, o destino do cadáver de um astronauta é ainda território desconhecido (como você poderá assistir no vídeo abaixo, o astronauta Mike Massimino confessa que o programa espacial da NASA não inclui, no treinamento, o que fazer com um cadáver no espaço).

Caitlin apresenta duas maneiras de se lidar com o problema, usando como personagem a pobre e hipotética Dra. Lisa, que teve o azar de morrer enquanto fazia um reparo do lado de fora da Estação Espacial Internacional (ISS): um meteorito fura o traje espacial da nossa astronauta e adeus, Lisa.

Dra. Lisa morre

Segundo Caitlin, os olhos de Lisa não se arregalam como se vê no cinema, nem a pobre vai se despedaçar numa explosão nojenta de sangue e gelo. Pra sobreviver, ela vai ter que pensar e agir rapidamente, porque tem cerca de dez segundos de consciência. “Esse é o tempo estranhamente específico e assustador que ela tem  para chegar a um ambiente com oxigênio. Mas a descompressão rápida provavelmente a deixará em choque, e a morte alcançará a pobre Lisa antes que ela saiba o que está acontecendo.”

A morte da astronauta é causada pela falta de pressão do ar no espaço. “Os gases no corpo de Lisa se expandem e os líquidos se transformam em gás. A água de seus músculos se converterá em vapor, que se acumulará sob sua pele, distendendo áreas do corpo para o dobro do tamanho normal. O nitrogênio no sangue formará bolhas de gás, causando uma enorme dor. Quando a Dra. Lisa desmaia, isso na verdade é um alívio misericordioso, porque ela continuará flutuando e inchando, sem saber o que está acontecendo.”

Uma hipotética Dra, Lisa não se transformaria em um esqueleto espacial porque as bactérias também seriam congeladas, impossibilitando a decomposição do cadáver. (Fonte: Wonderful Engineering/Reprodução)

Depois de um minuto e meio, a frequência cardíaca e a pressão sanguínea da astronauta caem até o ponto em que o sangue dela ferve. A diferença de pressão do lado de dentro e de fora dos pulmões será tão grande que eles se rasgam e sangram profusamente. Lisa se torna então o nosso cadáver espacial. E agora? Levamos Lisa de volta para a Terra ou a mandamos passear pelo espaço?

Sim, tragam o corpo de Lisa de volta à Terra

Para deter a decomposição do cadáver, a tripulação precisa manter o corpo da astronauta refrigerado para frear a ação das bactérias. Na ISS, o lixo é mantido na parte mais fria da estação. “Guardar Lisa na lixeira não pega bem, mas a estação tem espaço limitado e a área do lixo possui um sistema de refrigeração; por isso, faz sentido logisticamente botar o cadáver lá”, diz Caitlin.

Como trazer corpos de volta à Terra é um problema que precisa estar na ordem do dia quando se pensa na missão para Marte. Em 2005, a NASA pagou a uma pequena empresa sueca chamada Promessa para desenvolver o protótipo de um sistema de coleta de cadáveres espaciais chamado Body Back.

“O corpo de Lisa seria posto em uma bolsa hermética feita de GoreTex e empurrado para a câmara de ar da estação. Ali, o frio de -270° C congelaria o cadáver. Depois de uma hora, um braço robótico traria a bolsa para dentro e o sacudiria por quinze minutos, quebrando a astronauta congelada em pedaços. Estes seriam então desidratados, deixando cerca de 22 quilos de Lisa em pó no Body Back. Em teoria, dessa forma é possível guardar qualquer um por anos antes de devolvê-lo à Terra”, explica Caitlin.

Não, Lisa deve ficar no espaço

Lisa sempre quis permanecer no espaço pela eternidade. Assim sendo, a opção mais simples é enfiá-la em um saco e empurrá-la para fora da nave nos limites do sistema solar.

“É mais provável que ela apenas siga a órbita da ISS. Isso, perversamente, a transformaria em lixo espacial. Imagine os ônibus para Marte passando pelo cadáver em órbita a cada viagem: ‘Oh Deus, lá vai a Lisa novamente.’”

É possível que a gravidade de um planeta possa eventualmente capturar o corpo da nossa astronauta; se isso acontecer, ela seria cremada (de graça) pela atmosfera na reentrada.

Se for posta em uma pequena cápsula com propulsão, a astronauta poderia viajar além do sistema solar, cruzando a escuridão até um exoplaneta. Se chegar intacta à superfície e o casulo se abrir, a vida que todo corpo carrega (como bactérias) povoará o planeta alienígena. “Talvez a ‘gosma primordial’ da qual surgiram as primeiras criaturas vivas da Terra tenha sido apenas a decomposição da nossa astronauta. Se for esse o caso, obrigada, Dra. Lisa.”