O QUE ACONTECEU COM O PEQUENO ALBERT, COBAIA DE EXPERIMENTO HUMANO

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O Condicionamento Clássico, também conhecido como Condicionamento Pavloviano Respondente, é o processo psicológico da gênese de aprendizagem de respostas automáticas ou reflexivas que não partem de um comportamento voluntário. O estudo corresponde aos efeitos do binômio de estímulo-resposta no sistema nervoso central de humanos e animais, ou seja, a resposta que deve ocorrer abaixo do nível da consciência, como a salivação, aumento ou diminuição da frequência cardíaca, dilatação ou constrição da pupila, reflexo motor, náusea etc.

O primeiro a descobrir e se aprofundar na ideia básica do Condicionamento Clássico, foi o fisiologista russo chamado Ivan Pavlov. Responsável por teorizar e enunciar esse mecanismo e também abrir caminho para o desenvolvimento da reflexologia e psicologia comportamental, o homem tirou as suas conclusões fazendo experimentos de salivação em cães.

Foi então que em 1919, querendo fundamentar a sua ideia da “psicologia da aprendizagem”, o psicólogo John Broadus Watson inventou um dos mais controversos e antiéticos estudos empíricos da psicologia: o Experimento do Pequeno Albert.

As raízes da mente

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O homem se posicionava como um engenheiro que estava no extremo espectro da criação, acreditando que podia moldar o homem como se fosse uma espécie de semideus. Ele afirmava que com bebês saudáveis e bem formados em seu próprio mundo especifico para criá-los, garantia que qualquer um escolhido aleatoriamente poderia ser treinado por ele para ser qualquer tipo de especialista, fosse um médico, artista, advogado, chefe de comércio e até um ladrão, independentemente das habilidades, tendências ou vocações intrínsecas de raças e ancestralidade.

Dentro de seu “mundo especificado”, o ato sentimental era obsceno e deveria ser evitado para que a criança não desenvolvesse um “distúrbio emocional”, por isso ele decidiu provar a sua teoria fabricando uma fobia. E foi partindo desse princípio que, no hospital universitário John’s Hopkins University Hospital, em Baltimore, na cidade de Maryland, nos Estados Unidos, John Watson e sua aluna graduanda, Rosalie Rayner (com quem ele se casou anos depois), colocaram em prática o primeiro estudo de Condicionamento Clássico realizado em um humano.

O intuito do laboratório de John Watson era testar as reações a estímulos que causassem medo. Para isso, ele e Rosalie Rayner recrutaram um bebê de por volta de 9 meses de idade, a quem nomearam como “Albert B”, assim como o experimento como um todo. Os dois expuseram a criança a uma série de situações que envolviam barulhos muito altos e estridentes, um rato branco, um coelho, um macaco e também a máscaras e jornais em chamas.

A princípio, o pequeno garoto não demonstrou nenhum medo ao ter contato com os objetos. Foi então que John Watson colocou o rato diante do menino e acertou um cano de metal com um martelo. Ao ouvir o ruído alto demais, Albert começou a chorar. Depois disso, era apenas necessário que o roedor fosse mostrado para o menino para que esse começasse a chorar de pânico novamente e tentasse fugir, simplesmente por vê-lo. O estudo foi repetido várias e várias vezes até que ele temesse qualquer tipo de objeto que fosse peludo e branco, sendo esse inanimado ou não. Com isso, os pesquisadores conseguiram demonstrar como as emoções podiam se tornar respostas condicionadas.

Identidade número 1

John Watson publicou os primeiros resultados de seus testes na Journal of Experimental Psychology, em fevereiro de 1920, causando uma grande repercussão no campo da psicologia. No entanto, ao longo dos anos, conforme o experimento ganhava notoriedade, as pessoas se chocavam com o tipo de tratamento no qual o pequeno Albert havia sido submetido, erguendo a derradeira pergunta: mas quem era essa pobre criança usada como projeto de estudos?

Durante sete longos anos, o psicólogo Hall P. Beck desempenhou uma força-tarefa para localizar o paradeiro dessa criança, cujos documentos que a conectavam com John Watson haviam sido queimados por ele, provavelmente temendo as críticas acerca de sua ética profissional na época. Muito embora o verdadeiro nome de Albert permanecesse desconhecido, o pesquisador foi capaz de cruzar datas de nascimento aproximadas, junto com a informação de que a mãe do garoto foi uma enfermeira que teve o garoto no hospital onde o estudo foi realizado, e chegou em duas potenciais identidades.

Uma sugeria que Albert era na verdade Douglas Merritte, que morreu no dia 10 de maio de 1925 por conta de hidrocefalia (acúmulo de líquido no cérebro). Ele sofria com a doença desde o seu nascimento, indo contra as alegações presentes nos estudos de John Watson de que o garoto era saudável e “normal”. Ele também tinha graves problemas neurológicos que, segundo estudos, indicavam que ele possuía uma visão tão danificada que poderia ser considerado cego. Numa reavaliação mais aguçada do vídeo do experimento acompanhado por especialistas, foi constatado que o pequeno Albert demonstrava déficits comportamentais anormais, incluindo o desinteresse pelos animais quando apresentados e também algum tipo de problema de percepção.

Cresceu então uma evidência de que não só John Watson sabia sobre a condição da criança, quanto intencionalmente deturpou o seu estado de saúde, afirmando ainda que ela era psicologicamente estável.

Identidade número 2

Incomodados com as inconsistências que a descoberta de Hall apresentava, mais tarde, em 2014, um grupo de pesquisadores liderados por William Powell foi capaz de rastrear quem seria o segundo individuo em potencial para ter sido o pequeno Albert.

Chegaram a um garoto de nome William Barger, que nasceu no mesmo dia que Douglas Merritte, filho de uma enfermeira, Pearl Barger, que trabalhava também no hospital. Pearl já havia sido descartada das pesquisas de Hall Beck por não ter tido o filho lá no hospital, porém documentações levantadas por William Powell mostraram que a mulher teve três filhos com o seu marido, sendo que um deles foi entregue ao hospital em 1919, antes que se casassem. O nome dessa criança era William Albert Barger, porém constava nos registros do hospital que ele só era chamado por seu nome do meio: Albert B, exatamente como John Watson nomeara o seu projeto de estudo.

Além disso, a equipe de investigadores afirmou que o peso de Albert B estava muito mais próximo ao peso e a idade escritos na época em que deixou o hospital. Quanto ao comprometimento analisado nos vídeos, o homem argumentou que o comportamento do bebê não era exatamente atípico, mas era fundamentado na pesquisa de John Watson que indicava que a maioria dos bebês não demonstram medo ou reação a animais que nunca viram antes. Sobretudo, William Powell justificou que o pequeno Albert segurava uma bola de gude na gravação, o que não corresponde aos problemas de deficiência visual que acusavam nos arquivos médicos de Douglas Merritte.

Albert Barger morreu em 2007 depois de uma vida longa, feliz e saudável, disse a sobrinha do homem. Ironicamente, ele possuía uma aversão aos animais, embora muito poderia se dar pelo fato de ele ter testemunhado um cachorro ser morto durante um acidente. Se William Albert Barger fosse mesmo o Pequeno Albert dos estudos, então a afirmação de John Watson de que seus experimentos causavam pouco dano a longo prazo, estava correto.

Enquanto isso, as discussões e desacordos entre os dois grupos de pesquisas são muitas e se sustentam até hoje, num eterno jogo de “Quem É Mais Provável ser o Pequeno Albert?”.