Estamos em guerra contra um inimigo invisível, desabafa médica brasileira que atua em hospital na Itália

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Em estágio no setor de infectologia no Hospital San Raffaele, em Milão, a médica brasileira Renata Naves Mendonça, de 34 anos, narra em detalhes como acompanhou, de dentro de uma unidade de combate a epidemias, o crescimento dos casos de coronavírus na Itália. O hospital tem mais de mil leitos. A unidade de infectologia foi construída em 1991, por conta da epidemia da Aids. A infectologista, que foi para passar dois meses no país, estava com passagem de volta marcada para o dia 4 de abril, mas o voo já foi cancelado. Trabalha diariamente no contato com pacientes infectados e relata como é o dia a dia do combate à pandemia e como os italianos, num primeiro momento, descartaram o risco do contágio. Já são mais de três mil mortos no país. O marido está em quarentena no Brasil, depois de visitá-la.

Renata Naves Mendonça: brasileira no front do combate ao coronavírus na Itália Foto: Reprodução
Renata Naves Mendonça: brasileira no front do combate ao coronavírus na Itália Foto: Reprodução

Como foi quando chegou a Milão?

Cheguei dia 31 de janeiro. Vim no meu último mês de residência em infectologia. Naquele momento se falava no coronavírus, mas em tom de piada. Tínhamos na Itália inteira só dois pacientes confirmados. Dois chineses, em Roma. No hospital em que trabalho, tínhamos apenas um leito aguardando um paciente com o vírus. Havia um pavor relacionado aos chineses. As pessoas tinham medo dos chineses na rua. Alimentaram o preconceito com os orientais. Diziam: “isso é coisa de chinês”.  Se falava “a gente aqui é mais organizado”.

Quando percebeu que tudo começava a mudar?

Tudo aconteceu muito rápido. Dia 8 de fevereiro foi o primeiro dia do carnaval de Veneza. Tinha o sonho de conhecer. Fui aproveitar o final de semana, Veneza lotada, os trens lotados. Muita gente junta. Filas gigantescas. As pessoas iam se apertando. Depois, houve alguns outros eventos aqui em Milão. Tinha um bairro aqui lotado. Ninguém esperava. No dia 22, teve a questão da cidade de Codogno, a mais ou menos 60 km de Milão. Surgiram casos de uma pneumonia bilateral. Todos tinham ido num bar.  Alguns eram assintomáticos. O primeiro grande susto.  Foram 60 pesssoas com o virus. Aí se alastrou para a cidade toda. Demoraram muito a fechar a cidade. O barman estava infectado. Os donos. Mas não se estabeleceu a origem do vírus. Tornaram a cidade zona vermelha. Aí outras em outras cidades da região aconteceram casos. Não vimos o que estava acontecendo.

Qual foi o primeiro paciente em seu hospital?

O primeiro paciente foi um médico de Cremona, que veio transferido, mas não tinha os sintomas. Isso foi em uma sexta-feira. No final de semana fui para Turim. Aí começou o burburinho. Os museus abertos. Algumas pessoas tomando cuidado com máscara, mas a maioria sem se importar. Fevereiro todo o virus foi praticamente ignorado. 7 de março o vírus fui para Bergamo e voltei à noite. Lá já tinha orientações para tomar distância. Ali o número começou a aumentar absurdamente. Seguraram muito pela questão economica. Esssa região é responsável por 20% da economia do país. Só fecharam quando o número aumentou. Dia 7 para o dia 8, acordamos com a zona vermelha decretada. E eu sem saber o que fazer. Náo podia entrar nem sair da zona. Houve correria de madrugada para as pessoas fugirem para o sul. Três dias depois toda a Itália foi decretada zona vermelha. Depois que declarou a Italia zona vermelha. Vocë via cada dia as coisas apertando mais. Orientações nos autofalantes nos ônibus. Motorista de ônibus passaram a colocar faixas para não chegarmos perto, houve limites para o número de pessoas nos supermercados.

Renata Naves Mendonça: trabalho temporário em hospital San Raffaele, em Milão Foto: Reprodução
Renata Naves Mendonça: trabalho temporário em hospital San Raffaele, em Milão Foto: Reprodução

Como a rotina do hospital mudou?

Tivemos que dar alta para pacientes nossos com outras áreas dentro do hospital. Tínhamos 24 leitos que se transformaram em 120. No subsolo funcionava ambulatorio e no térreo a medicina do sono. Fomos desativando. Eu participei da primeira reunião para decidir isso. Tem gente que defendia não fazer as mudanças. O protocolo inicial foi mais rígido. Extrapolamos a orientação da OMS. Orientava naquele momento utilizar máscara cirúrgica. Usamos a N95 para todos. Num segundo momento, o controle de infecção voltou atrás. Se tornava insustentável, porque estava começando a faltar. Eu fiquei ansiosa de entrar no leito e ver de perto. Os primeiros, só os mais experientes viram. Eu entrei na primeira semana. Todo mundo apavorado passou a ficar apavorado com o vírus, os leigos, eu tinha um misto de incerteza sobre o que dizer. Mas entendendo que ali na minha frente não tinha um vírus, mas uma pessoa assustada.  A gente não tinha muita resposta. O primeiro paciente era médico, nos orientava. Os infectologistas corremos para onde todo mundo quer fugir.

Como infectologista, que conselhos daria aos brasileiros? 

Para pessoas no geral é muito complicado lidar com o que não pode ver. A gente lida com o inimigo invisível aos nossos olhos. É algo complicado, não está estampado na cara de ninguem que ela porta aquele vírus. A gente não tinha a percepção. Achava que ia chegar aos poucos e a gente ia dar conta. Os países que tomaram medidas mais firmes precocemente se sairam melhor. Estou em uma cidade das mais ricas da Itália. Hospital mais rico. E estamos vendo toda a dificuldade de lidar com todo uma população ao mesmo tempo. Com o medo. Nem pagando tem vaga na UTI. Me sentindo cansada. Meu celular não para de tocar com fakenews. A minha mãe está aqui, mas foi muito difícil dizer para ela que ela não poderia colocar a mão no rosto quando está na rua. Isso é uma coisa que as pessoas precisam entender. A questão de se apegar a mortalidade de 2% prejudica. A mortalidade acima de 60 anos é 16%. Tenho falado com vários com vários hospitais públicos e privados e a falta de insumos é grave aí no Brasil. Já tem falta de UTI. Aqui estamos fazendo terapias, seguindo o exemplo o exemplo da China. Resgatamos o Caletram, inventado nos anos 90 para os pacientes com HIV. Até medicina chinesa foi usada. Dentro da enfermaria em que trabalho, já vi quatro mortos.

Como enfrentar?

A gente não pode ir para uma guerra subestimando um inimigo que não conhece. Não podemos subestimar o coronavírus. O exemplo é fundamental. E os erros cometidos na Itália podem ser evitados.  Tem um outro medicamento que está sendo utilizado. Criado para o Ebola. Rendesvir. A questão é que faz parte de um protocolo de pesquisa. Está dentro do protocolo de pesquisa. Um medicamento só pode ser vendido para a população depois de passar em fase de estudo.  Não há droga eficaz no momento. A única medida é se afastar. A questão da higiene. Mudar hábitos é muito difícil. O contato para o vírus é extremamente importante. Ele não mata o hospedeiro, mas se difunde. Apesar de não ter índice de letalidade do ebola.

Como vocês, médicos, se protegem no hospital?

Entro pelo subsolo, retiro todos os acessórios, minha aliança está guardada em casa. Troco por outra roupa. Entro no andar de máscara, óculos e touca. É quarto com pressão negativa. Coloco uma luva, uma capa impermeável. Tudo que leva para o quarto do paciente é levado para fora, para o lixo. Ninguém leva para o quarto nada pessoal, nem celular. Se o paciente assina o papel, alguem está com o plástico e veda o papel. São duas luvas, óculos, máscara com viseira. Temos que tomar cuidado para não sentar em lugar algum. Tem um kit de estetoscópio em cada quarto. Aparelhos individuais para cada paciente. E me preocupa porque isso não vai acontecer no Brasil. Tem que ter toda uma estratégia para pensar no que levar para dentro do quarto. Tenho que levar seringa, touca, tenho que levar, tem um saquinho, pacote fechado. Tudo que tira quando sai da antessala tem uma forma de tirar corretamente para não se contaminar. Tira a primeira luva, depois a segunda. A minha mão está ardendo. Ressecada e grossa como nunca esteve.