“Escrevia para não ficar doido”, diz ex-morador de rua que se transformou em escritor

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Sebastião Nicomedes de Oliveira, 45, diz já ter feito “de tudo um pouco nessa vida”. Já colheu algodão, foi cobrador de ônibus, trabalhou em restaurante, foi zelador de uma igreja, fabricou placas e letreiros. Mas, só durante o tempo em que morou na rua, ele descobriu um de seus maiores talentos: a escrita.

“Escrever era um desabafo na época.Tinha medo de enlouquecer de vez, escrevia para não ficar doido. Escrever me ajudou a enfrentar as dificuldades da rua e elas não foram poucas”, lembra.

“Eu sempre gostei de ler e costumo ler muito, sabe. Gosto de Machado de Assis, Graciliano Ramos”. Para aqueles que gostam de literatura e desejam escrever bem, Sebastião diz que o segredo é “ler de tudo. Ler jornais, revistas, livros e até gibis. E fazer rascunhos também. Faço isso o tempo todo.”

Vida na rua
O escritor foi parar nas ruas depois de um acidente grave de trabalho, em 2003. Enquanto instalava uma placa luminosa – na época ele era dono de uma empresa de comunicação visual –, caiu de um andaime a uma altura de cerca de seis metros. Além das fraturas e uma placa de platina no punho esquerdo, ele ainda enfrentou o sumiço da noiva e a descoberta de que seus companheiros de trabalho o haviam roubado.

Chamado de “poeta das ruas”, Sebastião já publicou um livro de poesias e crônicas, chamado “Cátia, Simone e Outras Marvadas” (2007), e escreveu a peça “Diário dum Carroceiro”, sobre a vida de um catador, que foi montada em 2006 e rodou algumas regiões do Brasil.

As duas obras foram escritas nos quatro anos em que Sebastião se dividia entre a rua, albergues e pensões da cidade de São Paulo. Para ele, as inspirações vieram de tudo que observava ao seu redor. “Catando latinha por aí acabei catando lápis e caneta e comecei a escrever. Acabou surgindo aí a ideia do ‘Diário dum Carroceiro’.”

O escritor nasceu em Assis (SP) e só cursou até a 8ª série do ensino fundamental. Diz não ter voltado aos estudos por achar “que não conseguia mais ficar parado na escola”. Apesar do afastamento dos bancos escolares, Sebastião faz questão de ressaltar que acredita no poder da educação.

Engajamento
Com a repercussão de seu trabalho e da experiência como morador de rua, o escritor conheceu e passou a integrar alguns movimentos sociais – como o dos catadores de materiais recicláveis e o de moradores de rua.

Atualmente, Sebastião fica dividido entre São Paulo – na pensão de um amigo – e Caraguatatuba, onde conseguiu comprar uma casa. Sua fonte de renda é o artesanato. Porém, não deixou o gosto pela escrita de lado. Ele pretende lançar um novo livro, assim que possível. Seu próximo título também retrata a vida na rua.

“Estou fabricando uns barquinhos de madeira e estou no propósito de vender 200 pra custear a publicação”, conta o ex-morador de rua que não tem editora em vista para seu livro.

Outro projeto que o escritor está envolvido é a organização de um festival de música para pessoas em situação de rua, em parceria com o Sindicato dos Músicos do Brasil. “O festival vai ser a oportunidade que muita gente sonhou. Um presente. O pessoal discute muita política, querem trabalho, querem moradia, mas eles [moradores de rua] também precisam de lazer e de cultura.”

FONTE: UOL

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