Encanto de brasileiras por gringos é sintoma da “grama do vizinho”

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brA receptividade dos brasileiros em relação aos estrangeiros não é uma novidade, tanto que o País é conhecido por ter um povo acolhedor. Na Copa do Mundo, os gringos se tornaram uma grande atração em locais como a Vila Madalena, em São Paulo, para onde brasileiros e brasileiras se deslocaram em peso nos dias de jogos, muitos interessados em conhecer e até se relacionar com alguém de outro país. Essa exaltação, segundo especialistas entrevistados pelo Terra, se encaixa no ditado “a grama do vizinho é mais verde”,  ou seja, “não valorizar o que se tem aqui,  e ter o diferente como mais atraente”, segundo o psicólogo José Palcoski.

De acordo com a socióloga Franciele Otto, da Universidade Regional de Blumenau, a história de colonização do Brasil ajuda a desenvolver um olhar em que pessoas de determinados países são mais interessantes ou melhores. “Fomos uma colônia de exploração, ou seja, desde o surgimento do País o estímulo de valorização está voltado para outros países. As terras brasileiras deveriam servir outras nações, portanto, os elementos culturais deles eram tidos como legítimos”, analisou Franciele. No Brasil, segundo a socióloga não há cultura de valorização da pátria, o que abre espaço para a cultura estrangeira.

A oportunidade de contato com essa “cultura superior”, e até de estabelecer vínculos com alguém que faça parte, pode estar relacionada à ideia de “ter um futuro melhor fora do País”, avaliou a psicóloga da clínica Livon, Karyne Correia. Em São Paulo, o foco de brasileiras nos turistas e a estratégia de brasileiros em se passarem por gringos para paquerar mulheres foram noticiados pela imprensa. “Se elas, supostamente, queriam os gringos, não seria lógico que eles, famosos pelo tal ‘jeitinho brasileiro’, tentassem tirar alguma vantagem nisso?”, questionou a psicóloga.

Todavia, a valorização do que é de fora não se restringe apenas nas micaretas pós-jogo na Vila Madalena, mas também em relação ao consumo. Roupas, carros, sapatos, acessórios e eletrônicos fabricados em outros países são vistos com qualidade mais alta do que os nacionais. Entre os motivos, na opinião da psicóloga e professora da Faculdade de Medicina de Petrópolis, Virgínia Ferreira, é que “durante séculos, os produtos importados eram realmente superiores”. Além disso, costumam ser mais baratos. As grandes marcas passam a ser valorizadas no mercado de bens simbólicos, ou seja, “as pessoas sentem que adquirem um pouco desse poder e prestígio ao usarem determinado produto”, disse Franciele.

“Se elas, supostamente, queriam os gringos, não seria lógico que eles, famosos pelo tal ‘jeitinho brasileiro’, tentassem tirar alguma vantagem nisso?” – Karyne Correia, psicóloga

Sobre o desejo de viver em outras nações, Palcoski considerou que “o povo brasileiro está tendo mais acesso a informações, o que acaba revelando alguns problemas sociais antes não percebidos e, assim, uma comparação com as vantagens de outros países”.  De acordo com o psicólogo, não há problema em achar a grama do vizinho bonita, o problema é quando se converte em frustração “com a própria grama” e degradação da autoimagem.

É importante destacar que não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas a tendência para a valorização de elementos culturais estrangeiros ocorre em outros países, sobretudo nos colonizados, afirmou Franciele. A falta de patriotismo pode levar à perda dos elementos fundamentais da cultura de um povo, alertou Virgínia. “Faz com que as pessoas percam as referências históricas e duradouras e sejam conduzidas por uma gama de costumes e valores que nunca fizeram e não fazem parte de sua história. Pode ocorrer uma crise de identidade”, concluiu a psicóloga. (Terra)

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