CULPADO OU INOCENTE? JUSTIÇA REVÊ CASO DE CONDENAÇÃO À PENA DE MORTE

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Um dos casos mais controversos da história estadunidense foi a condenação e a execução de George Stinney Jr. O jovem de 14 anos, que em um espaço de apenas 83 dias foi acusado, julgado e executado no estado da Carolina do Sul, foi considerado a pessoa mais jovem a passar pela pena de morte nos Estados Unidos, no século XX. Após 70 anos, seu julgamento foi anulado.

O caso

Em 1944, a segregação racial nos Estados Unidos ainda era muito forte. Os traços dos embates entre brancos e negros eram claramente definidos. Vizinhanças eram separadas, havia escolas diferentes para as crianças com base na cor da pele, e tudo era feito para que o universo de brancos e o de negros não se cruzassem.

No dia 24 de março de 1944, duas meninas brancas estavam procurando flores pelos campos de Alcolu, uma cidade rural da Carolina do Sul. Pararam para pedir informação a um jovem negro, o que já era muito incomum para a época, e seguiram seu caminho. No dia seguinte, Betty June Binniker, de 11 anos, e Mary Emma Thames, 7 anos, foram encontradas mortas próximo a um campo coberto de palha de milho.

O caso chocou a comunidade pelo grau de violência: as meninas foram espancadas até a morte, seus crânios foram quebrados em virtude da força utilizada. Elas foram encontradas na vizinhança negra da cidade, e a suspeita caiu sobre a última pessoa que as tinha visto: George Stinney Jr.

A prisão

Aime Ruffner, irmã de George, estava em casa com o jovem quando duas viaturas se aproximaram da sua casa. Ela, com 8 anos na época, conta que aquela imagem é clara como a luz do dia. Em casa, estavam apenas ela, o irmão do meio, Johnny, e Stinney. Os oficiais brancos chegaram, algemaram e levaram os dois irmãos sem nem ao menos comunicar os pais das crianças. O irmão de George foi solto pouco tempo depois.

Aime conta que as últimas palavras trocadas com seu irmão foram as seguintes: “oh George, você está me deixando? Onde você está indo?”, e o garoto replicou dizendo para a jovem encontrar seus pais e informar que eles haviam sido levados. Essa foi a última vez em que ela viu o irmão com vida.

O processo e o julgamento

Desde sua prisão até o julgamento, George não pôde receber visitas dos pais. Segundo os oficiais responsáveis, o jovem teria confessado o crime, sem a presença de um advogado ou de familiares — apenas George e os oficiais. No local onde as meninas foram encontradas havia pouco sangue, o que indicava que elas não tinham sido mortas ali, mas sim removidas de outro lugar.

A confissão apresentada pela defesa mudou algumas vezes durante o processo, sempre buscando adequar-se ao que a acusação apresentava. A própria arma do crime variou: primeiro foi um pedaço de ferro, depois uma lança e, por fim, um prego de ferrovia. Seu advogado de defesa não chamou nenhuma testemunha (mesmo a irmã de George tendo alegado que estava com o irmão na hora do crime) tampouco recorreu da decisão do júri.

Aliás, o júri era constituído por 12 pessoas brancas que, após um julgamento de apenas 2 horas, definiram o réu culpado das acusações. Sua sentença: pena de morte via cadeira elétrica.

Vida após condenação

O pai de George foi demitido de onde trabalhava, e sua família foi forçada a se mudar em virtude de toda a repercussão do caso. Em apenas 83 dias, o jovem foi preso, julgado, condenado e executado. Franzino, mal cabia na cadeira elétrica.

Muito tempo depois, em 2014, a juíza Carmen Tevis Mullen anulou o julgamento, pois considerou que os procedimentos foram irregulares e feriram os direitos do jovem.

Como os documentos do julgamento de George se perderam com o tempo, um novo julgamento não pôde ser realizado (além da falta de documentos e da arma do crime, a maior parte das testemunhas não estão vivas). Então, o máximo que coube a Carmen foi anular o julgamento, sem entrar no mérito sobre inocência ou não.

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